No Vazio

No vazio está o preenchido
E no cheio está o nada
O coração vive do momento
Quando a mente é despojada

Na alegria descobre-se a claridade
E na Luz dilui-se a parte sombria
O ego ofusca a simplicidade
Se o teu sorriso agir como utopia

Na coragem está a acção
E no silêncio pulsa quietude
A calma é a força da emoção
Quando o sossego é a Tua atitude

Na serenidade está a visão
E na escuridão "vê-se" os sentidos
A reflexão é motor da percepção
Se a verdade preencher os dias vividos


No final se vê o começar
E no inicio sabe-se que tem fim
Entre os dois, está o caminhar
E a sabedoria de amar assim...

Ismael R. Cortês - 23/07/2017

VENTO


É preciso ser como o vento
como este vento de hoje
um vento que ralha
que murmura em todos os cantos

É como a minha alma que desponta
que precisa de fermento para crescer
para ser como o vento
e sobrevoar as encosta do desconhecido

é preciso ser como o vento
destemido e intenso
entrando pelas portas e janelas
cantando, rosnando de bravura
de rebeldia
para ser livre
voando e cantando a alma
de tão verdadeiro que é...

Só queria ser o vento agora
e voava, estremecia as casas vazias
abanava os olhares perdidos
abria os rostos fechados
limpava as margens daquele rio
ia ser a água das ondas
que se engradecem não para serem alguma coisa
mas para fazerem muita coisa
fazerem barulho
mexer, agitar
e entornar tudo num caldo
de verdade e de paz
aquela que está lá dentro

só precisa de uma boa ventania
para que tudo se torne uma manjar sublime.

Rui Mattos Azevedo - 24/03/2015

Pessimismo

Porque haverá tanta poeira
quando estamos no inverno
Pelo menos sobra estas postas de sol
um pequeno arrebatamento
este cheiro a terra a lembrar mil momentos

Avisei, com esta ignorância
que iria acontecer o pior
porque está-me na escama
este olhar pessimista.

Ao mesmo tempo tudo me parece otimista
quando não tenho razão
Dose, deslumbramento
É o que penso
É o que sonho para sair do controlo

Vem tempo do sul
Lava o certo
e tráz a luz do incerto
do desconhecido
para viver

Sejamos o sol
de todos os invernos
E não a chuva

de todos os verões

Chuva

Some-se esta chuva pelas persianas
pelas sombras dos lençóis dos sonhos
venta uma inquietação nessa água
dispersa por gotas
e violenta como a sede
Uma água com sede de cair
e lavar os cestos da alma
Migra uma agitação com esse som
da tempestade tempestiva
Vai algures para nenhures
mas se instala no teu acampamento
de pensamentos
de sentimentos.
Como um iman fica-se órfão
apenas um ser vago
que pernoita nos confins
do desalento, mortinho para abraçar o sol
E quando ele vem fica-se apenas por sabê-lo

esquecemo-nos de senti-lo
e abraça-lo
e a vida vai-se com os ventos
e as chuvas...

ZC-19/10/2013

Sempre que haja

Sempre que haja um sabor
igual aquele do café com beijos
uns quentes com chocolate amor

A quentura do corpo abraça
a alma de imediato numa sinfonia
e então sente-se uma força que entrelaça

Não fiques e vai além
até ao sorriso que te escuta
e te lambe inviselmente sem deixar aquém

sempre que Haja
faz acontecer
corre e faz com que o suspiro seja consequência.

ZC-15/10/2013

Folhas

Hoje o tempo vem das folhas
que caem nos colchões da alma
Como quem já viveu
esta meia claridade do dia
entremeada de esboços de esperança

comprometido pelo alcançe das folhas
não abandono a árvore despida
não posso arredar pé de quem
nasceu para nunca sair

Nada faço com isso
mas o coração dita-nos
mesmo que enchamos o caderno cheio de erros.

ZC-12/10/2013

Tudo acossado nas sombras
da noite, entre o que se pensa
o que ser quer e nada vem
Apenas as contidas chuvas
rompidas pelo nevoeiro
de um outono gravido
de sol.
Nada... apenas as tardes
vestidas de inverno
e uma dose de cerveja
a iludir esperança
De volta com as redes
com o barco nos pés
pronto a voar sobre o planeta das ondas

com o sabor a sal nos alpendres
vou caminhar sorrindo
desbastando a salgadeira
bebendo o copo da coragem

contente por ver luz
por saber que vou por ali!



ZC-04/09/2013

Chá

Hoje nada sabe
mais do aquele chá quente
que passou rente, aos sentidos
Depois quase me despertou e desembarcou
junto aqueles areais cheios de sossego.

Em que ficas quieto
quase até demais. Quase te esqueces que respiras
que vives e deixas a vida passar-te sobre os dedos,
a areia desliza na panela das cocegas
e um frenesim passa pela alma do passado
regurgita os pecados, os arrependimentos dos olhares

Cheiras a maresia para te salvar do
entorpecimento do chá que vem só para nos lavar
o estômago ou os pensamentos

molho os lábios com o desejo
do futuro, e as gaivotas trazem-me até hoje.

Para ver se consigo bailar
com a naturalidade das ondas, sem dificuldades
nem exercícios esforçados sobre a essência
mas com a alegria de correr sobre os ventos
e querer alcançar o paredão do horizonte.

Zc - 11-6-2013

Mais pessoas

Contidos sobre a alma
vivemos para além de nós
como se fossemos pessoas fora do nosso corpo.
Existe um cosmo do inconsciente que se assemelha
a não pessoas, a uma espécie de pessoas.

procuramos a sabedoria
vivendo, tentando, conhecendo
e podemos provar a felicidade
como também sofrer
mas assim podemos viver mesmo
e ser mais pessoas
mais próximas de criar uma sociedade com mais esperança.

ZC-31/5/2013

Passar o Tempo

Nada conta senão o tempo
que usamos
e deixamos que nos entre sobre as árvores

Aquele tempo
que passa apenas como tempo
esfuma-se como um rescaldo de um fogo

Tudo conta
sempre que cozinhamos o tempo
com a receita da vida

num prato saboroso
que é nossa marca por onde e por quem passamos.


Chuvas

Como em poucos dias
vem esta chuva de meses
lavar as cestas cheia de pecados

No horizonte vem a Primavera
Como no desejo vem a sensação

Algures sol e dias grandes
mas vê-se mais o vento e sente-se mais o frio.

Nada disto é transversal
nunca foi e nunca será

mas dores de hoje como malfeitas
serão sempre tragédias

e as de ontem nada de especial.

01/04/2013

Estás Morto Portugal

Estás morto Portugal
cheio de feridas numa agonia que se vê nos teus olhos… os do povo!
Auscuta-se o teu corpo pelas casas
e ouve-se os gritos silenciosos da ausência
Na terra ouve-se a bravura
Do sangue a mexer numa labuta dura

Porque foste quase até ao fim
Portugal
Deixaste resteas de nada a pairar 
Sobre a ilusão de ser

Estás a mexer pela conduta
Do amor de pais, pelo amor da vida
Pela saudade e fado
Que será a eterna maneira de tu seres

Irás além de toda a dor
E serás Portugal quando reunires os teus filhos
E de ti seres os portugueses.


ZC-1/3/2013

Porque raio

Porque raio penso
com as visceras e
junto ao peito sinto
as mãos dentro da razão...
Traz-me dissabores o jeito
que não me faz ser o leito
apenas as margens dum rio em que tudo passa
Porque raio ensaio a vida num peça
quejulgo nunca acabar
ficando a sonhar como será o amanhã

Porque raio se vive com sorte
e muitos só comem dor até à morte

Porque raio quis Deus tudo fosse divino
criando o homem como algo imperfeito
e feito para se autodestruir.

Porque raio se escreve se
temos boca para falar.

porque nem tudo é linear...

ZC-19/01/2013