Penosa a sobra das luas
Nos encantos de cada redor dos amantes
Como escondido os volumes dos cabelos na claridade do escuro
Embora cada gota do ar que a noite traz
Caia,
Não é a luz da noite que a filma
Porque ela cai, à nossa frente até dos verdes arbustos

Saibrosa a visão inócua
Das ruas gastas de mil vidas jusantes
Apesar de os caminhos serem fonte de ensino

Mas o que se sente é sempre
A chuva fria na pele do momento
O que aflige é incessantemente
O corte da ferida aberta
O que interessa é permanentemente
Aquilo que nos alcança a conveniência

E as invisíveis gotas do orvalho
As utilidades depreciadas dos pentes que nos alinha os cabelos
As sobras das luas e das ruas
As vozes pedagógicas das areias dos caminhos

Ficam a ser as notas da pauta musical da natureza
Que nos canta a sinfonia da vida
Ensinando

Muito, aconselhando tanto.
ZC 10 de Agosto de 2009

2 comentários:

Flora disse...

Absolutamente lindo...

micas disse...

Intervalo

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado —
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?

Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?

Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca —
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.

Fernando Pessoa

Um bj espero que gostes só um grd poeta para fazer um comentário a tamanho talento.